As coisas pelo nome
Eu não sou o meu nome. Eu sou o teu nome escrito do avesso. Eu sou o meu nome encostado à tua cabeça. O meu nome que foge de mim. O teu nome e o meu nome atados com cordas. O teu nome sou eu quando me debruço por cima do teu ombro. O meu nome a fazer uma pirueta. O meu nome a cair lentamente sobre a tua cama estreita de mulher. O teu nome dentro da minha boca. Sou eu a pedir-te que repitas o meu nome, sussurro a sussurro, letra a letra. Sou eu a dizer o teu nome que trago debaixo da língua. O teu nome no meu sexo estampado. O meu nome no teu sexo estrela. O meu nome é um sexo levantado. O meu nome é uma carícia que me fazes por cima da minha cicatriz. O meu nome é a cicatriz a meio do teu corpo. O meu nome plana por cima das planícies em busca do teu nome. O meu nome cai a pique junto ao teu nome. Nunca digas o meu nome. O meu nome não existe. Não vem em nenhuma página escrita. O meu nome é um cifra escrita a verde ultramarino. Verde ultramarino é a cor de que mais gostam os nossos nomes. O meu nome sobre o teu nome. O teu nome sobre o meu nome. Os nomes muito perto. Os nomes muitos. Os nomes exaltados. O meu nome em cadência lenta. O meu nome é forte como um bicho selvagem. Os nossos nomes percorrem as paisagens como cavalos endoidecidos. Quem diz o meu nome diz amor, qualquer coisa aflita. Quem diz o teu nome deseja ser atingido por um raio, elevado aos céus. O meu nome por dentro do teu nome. O teu nome a pedir perdão por tudo. O meu nome, o teu nome, agarrados por cordas, a cair num precipício. Os nossos nomes são coisas que se comem por dentro. As coisas pelos nossos nomes são aves sagradas. Nome a nome, coisa a coisa. O sol morre dentro do meu nome, na minha boca. O teu nome abriga numa mão fechada o que resta do meu nome. Nomes muito belos. Um nome sem nome. Um nome inefável, inomável. Um nome que ninguém conhece. Só o teu nome sabe o meu nome de cor. O meu nome a subir pelo teu. O teu nome repete o meu nome, nome a nome, sílaba a sílaba. As coisas pelos seus nomes. Os nomes pelas suas coisas. Cada coisa com seu nome, o nome sem fim. Cada nome com sua coisa. O nome do nome no umbigo do mundo.
Sunday, May 27, 2007
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10 comments:
está aqui o pedro paixão?
ou alguém com o mesmo nome que, de qualquer modo, escreveu um bom texto...?...
TanTo
/noMe/
a cor preferida dos nossos nomes é o amarelo porque ele obriga os nomes a sorrir, mesmo quando não lhes apetece. têm a cadência tríptica do medievalismo nascidas nas cordas de um violino decepcionado. dizer o teu nome é dar o novo nome a cada coisa.
Gostei muito e...
ainda mais,
dando-lhe
como final
(o comm. da)
lia bettecourt...................
somos de paixão. pedro. em paixão.
B.
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Vi um Pedro Paixão
na Exposição
50 ANOS DE ARTE PORTUGUESA
(FCG)...
És tu ?
a exposição que inaugurou hoje no
MNAA
sobre
O TAPETE ORIENTAL EM PORTUGAL: Tapete e Pintura – séculos XVI a XIII.
A NÃO PERDER!
ABSOLUTAMENTE !
Pedro Paixão...
porque não mais
palavras
tuas?
Escrever é também fazer chegar
as palvras
tuas
aos teus "leitores" da blogosfera...
p.p.
... acabou?
... desistiu ...
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